Dia 25 de Novembro: da Ditadura da Violência ao Empoderamento

publicado: 25/11/2016 12h37

Todos os dias vemos as notícias nos jornais de assassinatos e outras violências praticadas contra a mulher, pelo simples fato de serem MULHERES. Ontem choramos por Érika, antes de ontem por Valéria, em outubro por Mikaely e todos os dias nos indignamos por todas as Marias e Clarisses que continuam chorando no solo do Brasil, não mais pelas torturas da ditadura militar, mas pela tirania da ditadura da violência. 

Sim. Hoje é a violência quem manda. Falou tá falado! “Fique atenta! Não ande sozinha! Volte pra casa antes de escurecer! Tranque o carro! Não use roupas curtas!” Lembra quando podíamos sair de casa a noitinha pra tomar um sorvete e andar livremente pelas ruas de mãos dadas com o namorado(a)? Hoje são tantas as recomendações que é mais fácil ficar em casa no sofá vendo televisão. “Ninguém vê aonde chegamos? Os assassinos estão livres, nós não estamos”, dizia o poeta da juventude. 

A Violência contra as Mulheres

Apesar do aumento generalizado da violência nas ruas, é necessário destacar que a maior parte dos abusos praticados contra as mulheres ocorre no âmbito doméstico/familiar ou das relações afetivas. Isso implica dizer que a ditadura da violência não está do lado de fora ou alheia ao cotidiano das famílias brasileiras, ela está entranhada na essência da sociedade, como um câncer!

Nesse sentido, então, vale lembrar que as recomendações supracitadas não colaboram muito. Ora, de que adianta não usar roupas curtas, não sair à noite, trancar as portas do carro se o assassino está à espreita, na maioria das vezes, dentro da própria casa? E ainda assim, independentemente de qualquer comportamento que a mulher tenha ou deixe de ter, ele vai matá-la simplesmente porque ela não o quis mais, ou porque ele não a quer mais, ou porque é um estuprador psicopata ou um pedófilo pervertido ou porque, na grande maioria das vezes, a mulher é presa fácil por conta de sua própria condição física!

O Empoderamento como princípio

Está é uma chamada ao luto, mas principalmente à luta! Muitas pessoas se perguntam: mas o que se pode fazer diante de um fenômeno tão complexo quanto à violência de gênero? A resposta que está ao nosso alcance no momento atual provêm de uma palavra, um neologismo, uma atitude chamada empoderamento. 

O termo se tornou popular após a criação em 2010 da ONU MULHERES (Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres), desde então, o organismo internacional vem adotando medidas que visam diminuir a discriminação e as barreiras impeditivas do desenvolvimento profissional e pessoal da mulher. 

No Brasil, no entanto, o educador Paulo Freire já havia trabalhado com a ideia de empoderamento trazendo-a atrelada à noção de conscientização, em sua Pedagogia da Libertação, onde o empoderamento não se trata de um ato individual, mas indica um processo político em busca da autonomia, necessária à transformação da realidade social, “um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta” (Freire &Shor, 1986, obra: “Medo e Ousadia”).

Trazendo esse entendimento para as discussões de gênero, basicamente, empoderar mulheres implica em resignificar o papel que elas exercem na sociedade, começando pelo que elas pensam de si mesmas, sobre o que são capazes de fazer, de transformar, e a buscar a conscientização quanto ao seu valor, quanto ao seu poder de superar as desigualdades e as forças externas que as empurram para baixo.

Uma mulher empoderada reconhece o seu papel na história, na cultura, na política e agem em função de empoderar outras mulheres e meninas. Ensina seus filhos a terem respeito pelas mulheres, a dividir tarefas domésticas, a elogiar em vez de fazer cantadas, e ensina suas filhas que elas precisam se valorizar enquanto pessoas de direitos, a se capacitar e se desenvolver profissionalmente, para que tenha a autonomia econômica e emocional necessária a um projeto de vida desvinculado de idealismos românticos, superando a chamada “síndrome da cinderela”.

O dia 25 de novembro, Dia Internacional para a não-Violência Contra as Mulheres, não é uma data para comemorações, mas para reafirmar a luta das mulheres por um mundo com mais tolerância, paz, menos discriminação, menos racismos, machismos e achismos, além de alertar à sociedade sobre os casos de violência e maus tratos contra as mulheres. A violência física, psicológica e o assédio sexual são alguns exemplos desses maus tratos. 

De acordo com as estatísticas, uma em cada três mulheres sofre de violência doméstica. A violência contra a mulher é uma questão social e de saúde pública, não distingue cor, classe econômica ou social, está presente em todo o mundo. 

Origem da data

A Organização das Nações Unidas (ONU), desde 1999, reconhece o dia 25 de novembro como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, em homenagem às irmãs Pátria, Maria Tereza e Minerva Maribal, que foram violentamente torturadas e assassinadas nesta mesma data, em 1960, a mando do ditador da República Dominicana Rafael Trujillo.

As irmãs eram conhecidas por “Las Mariposas” e lutavam por soluções para os diversos problemas sociais de seu país, a República Dominicana.

A data faz parte do calendário dos 16 Dias de Ativismo pelo fim da violência Contra a Mulher, um movimento mundial pela não violência que no Brasil se inicia do dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra e termina no dia 10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Também faz parte do calendário, o dia 01 de Dezembro, Dia Nacional de combate à AIDS, que nesta esfera vem lembrar a importância de se combater a faminilização da doença, e o dia 06 de Dezembro, Dia Mundial de Mobilização dos Homens pelo fim da Violência contra as Mulheres.

A Secretaria Municipal da Mulher vem desenvolvendo um importante trabalho de conscientização pelo fim da violência contra nossas mulheres e trabalhando pelo empoderamento das mulheres através de políticas públicas voltadas para o fortalecimento e capacitação das mulheres em nosso município.

No dia de hoje, convidamos a todas as mulheres a refletir sobre o papel de cada uma de nós para a desconstrução da ditadura da violência no interior das relações sociais que reproduzimos e também convidamos aos homens a examinar vossa contribuição na reprodução desse modelo arcaico de condução das relações afetivas, “tratando as meninas como se fossem lixo, ou então espécie rara, que só a você pertence” (Renato Russo, trecho da música: “A Dança”).

Como Paulo Freire e Renato Russo, ainda acreditamos que é possível, que ainda há esperança para os seres humanos e o caminho das flores é o respeito, a tolerância e a compreensão, pois o Sol nasce pra todos, todos os dias!

Se é possível obter água cavando o chão, 

Se é possível enfeitar a casa, 

Se é possível crer desta ou daquela forma, 

Se é possível nos defender do frio ou do calor, 

Se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens, 

Se é possível mudar o mundo que não fizemos, o da natureza, Por que não mudar o mundo que fazemos, o da cultura, o da história, o da política? 

(Paulo Freire)

 

Juliana Araújo

SEMMU